“O comportamento passado já não é suficiente para prever o comportamento futuro.” A afirmação de Arnaldo Carneiro, coordenador do Observatório Regional Amazônico (ORA/OTCA), sintetizou um dos principais debates do Firethon, realizado em 20 de maio pelo ORA com apoio do projeto CorAmazonia, da Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável (GIZ).
O encontro reuniu mais de 30 especialistas de institutos de pesquisa, universidades, organizações internacionais e organizações não governamentais para discutir inovações em modelagem preditiva de incêndios na Amazônia. A proposta do Firethon é construir uma visão compartilhada sobre o estado da arte em previsão de incêndios, interoperabilidade de dados e manejo integrado do fogo na região.
Segundo Carneiro, os incêndios deixaram de ser eventos isolados e passaram a refletir transformações estruturais na Amazônia. “A Amazônia está superexposta a incêndios cada vez mais frequentes e intensos, enquanto a capacidade de resposta ainda está muito abaixo do que deveria ser”, afirmou o coordenador.
Para o coordenador do ORA, o principal desafio é mudar a lógica predominante de reação ao fogo para uma abordagem preventiva. “Precisamos desenvolver capacidades para antecipar quando surgirão os cenários de maior risco de incêndios para Amazônia”, disse Carneiro.
Na abertura do encontro, Bivyani Rojas, chefe de gabinete da OTCA, ressaltou a importância da articulação regional e multissetorial para enfrentar o avanço dos incêndios. “A OTCA reúne redes de autoridades dos oito países amazônicos que trabalham tanto com manejo integrado do fogo quanto com saúde e segurança pública. Exercícios como este são importantes justamente para conectar essas agendas e fortalecer uma atuação multisetorial”, afirmou.
As discussões do Firethon abordaram temas como projeções climáticas, ecologia do fogo, sensoriamento remoto, impactos do El Niño, degradação florestal, estresse hídrico e ignição induzida por atividades humanas.
Informação para tomada de decisão

A pesquisadora Alexandra Syphard, do Global Wildfire Collective, destacou que o desenvolvimento de modelos preditivos precisa partir de problemas concretos. “Existem muitos modelos no mundo, mas é preciso começar pela pergunta, e não pelo modelo”, afirmou Syphard.
Já Ana Carolina Pessôa, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (IPAM), enfatizou que nenhum modelo sozinho é capaz de explicar toda a complexidade do fogo na Amazônia. “A governança do fogo exige complementaridade entre os modelos”, afirmou Pessôa. Segundo a pesquisadora, ainda existem lacunas importantes, especialmente em relação à interoperabilidade entre sistemas, à incorporação de dimensões socioeconômicas e às estratégias de restauração pós-fogo.
Durante o evento, Renata Libonati, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apresentou a confiabilidade de projeções climáticas em diferentes horizontes temporais e como essas informações podem apoiar estratégias de prevenção, ao indicar janelas de maior risco para incêndios.
Para Douglas Morton, da NASA, os desafios da modelagem preditiva ainda esbarram em lacunas científicas relacionadas à interação entre atmosfera, vegetação e oceanos. “A Amazônia sofre influência tanto do Atlântico quanto do Pacífico”, afirmou. Morton também adicionou que os modelos precisam avançar não apenas na previsão de ignições, mas também na capacidade de prever a propagação do fogo.
Participaram do Firethon representantes do INPE, IPAM, NASA, FAO, CENSIPAM, Yale University, Columbia University, Woodwell Climate Research Center, Fundación Amigos de la Naturaleza, Global Wildfire Collective, UNAM, UFRJ, UnB, CIMA Foundation e GIZ, entre outras instituições.
O Firethon antecede o evento “Taller sobre Datos e Información para la implementación del Manejo Integral del Fuego en la Región Amazónica – FIRE DATA”, nos dias 21 e 22 de maio. O encontro pretende construir uma visão compartilhada sobre dados, plataformas e processos decisórios relacionados ao manejo integrado do fogo, além de identificar lacunas, fortalecer capacidades técnicas e gerar recomendações estratégicas para a integração regional amazônica.
Legenda da imagem de capa: Imagem de satélite da NASA mostra focos de incêndio na Amazônia e na Bolívia em uma mesma cena (agosto de 2011), evidenciando a escala regional dos incêndios e a influência das condições climáticas e do uso do solo na propagação do fogo.



